Direito da Saúde

Cirurgia robótica para endometriose: o plano de saúde cobre? Direitos, prazos e o que fazer se negar

Publicado em Maio de 2026 · Atualizado em Outubro de 2026 · Por Fábio Persequino · Leitura: 14 min

A endometriose pode causar dor incapacitante, infertilidade e, nos casos mais graves, comprometer intestino, bexiga e ureteres. Quando o tratamento com remédios não resolve, a cirurgia entra em cena. E é aí que muitas pacientes descobrem que o plano autoriza a cirurgia, mas não pela técnica robótica indicada pelo médico, ou que o hospital cobra à parte uma "taxa do robô".

Este guia reúne, em um só lugar, o que a paciente precisa saber: quando a cirurgia é indicada, a diferença entre as técnicas, o que a ANS, o STF e o STJ dizem sobre cobertura, os prazos do plano e o que fazer diante de uma negativa.

Resposta curta
  • O plano com cobertura hospitalar deve cobrir a cirurgia de endometriose indicada pelo médico.
  • A técnica robótica não está listada no rol da ANS para endometriose. A cobertura depende de o caso atender aos critérios fixados pelo STF em 2025.
  • Em junho de 2026, o STJ mandou um plano cobrir cirurgia robótica fora do rol, aplicando esses critérios. A decisão foi sobre câncer de próstata, mas o raciocínio vale para outras doenças.
  • O ponto decisivo é o relatório médico: por que, no seu caso, a técnica robótica é necessária.

O que é endometriose e quando a cirurgia é indicada

Endometriose é a presença, fora do útero, de tecido semelhante ao que reveste o útero por dentro. Segundo a Organização Mundial da Saúde, ela atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva. Os sintomas mais comuns são cólica intensa, dor na relação sexual, dor ao evacuar ou urinar no período menstrual e dificuldade para engravidar.

Na endometriose profunda, as lesões infiltram estruturas como o intestino, a bexiga, os ureteres e os ligamentos que sustentam o útero. O diagnóstico costuma ser feito por ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal ou por ressonância magnética da pelve, que mostram a extensão da doença.

Nem toda paciente precisa de cirurgia. Em geral, o tratamento começa com medicamentos hormonais e controle da dor. A cirurgia costuma ser indicada quando:

A indicação é sempre do médico que acompanha a paciente. Para o plano de saúde e para a Justiça, o que conta é essa indicação, bem documentada.

Videolaparoscopia, robótica ou cirurgia aberta: qual a diferença

TécnicaComo é feitaQuando costuma ser usadaSituação no rol da ANS
VideolaparoscopiaPequenos cortes no abdome, por onde entram uma câmera e as pinças operadas pelo cirurgião.É a técnica mais usada na cirurgia de endometriose.Coberta, dentro dos procedimentos ginecológicos e de cirurgia geral previstos.
Cirurgia robóticaTambém por pequenos cortes, mas as pinças são braços robóticos comandados pelo cirurgião em um console, com visão em 3D ampliada.Casos complexos de endometriose profunda, em que o cirurgião aponta ganho de precisão em áreas delicadas.Não listada para endometriose. A única cirurgia robótica no rol é a prostatectomia, desde abril de 2026.
Cirurgia aberta (laparotomia)Corte maior no abdome.Hoje é exceção, reservada a situações específicas.Coberta.

A cirurgia robótica é, tecnicamente, uma laparoscopia assistida por robô: o procedimento é o mesmo, muda o instrumento. Os estudos comparativos mostram, em muitos casos, resultados semelhantes aos da videolaparoscopia. A vantagem costuma ser apontada nos casos mais complexos, e é por isso que a justificativa do cirurgião para o caso concreto pesa tanto.

O plano de saúde é obrigado a cobrir a cirurgia de endometriose?

Sim, quando o plano tem segmentação hospitalar. A Lei dos Planos de Saúde (Lei 9.656/1998, art. 12, II) obriga a cobertura das internações e cirurgias para as doenças cobertas, e a endometriose é doença coberta. O plano não pode negar a cirurgia indicada pelo médico alegando, por exemplo, que a paciente deveria continuar só com remédios.

A discussão costuma aparecer em dois pontos: a técnica robótica e a taxa de uso da plataforma.

E a cirurgia robótica? O que diz a ANS

O rol de procedimentos da ANS lista os procedimentos de cobertura obrigatória. A técnica robótica só aparece expressamente em um deles: a prostatectomia radical assistida por robô, para câncer de próstata, incluída pela RN 654/2025 e obrigatória desde 1º de abril de 2026, com diretriz de utilização própria. Para endometriose, a técnica robótica não está listada.

Isso não encerra a questão. Desde a Lei 14.454/2022, o rol é uma referência básica, e não uma lista fechada: um tratamento fora dele pode ter de ser coberto. A inclusão da prostatectomia robótica também mostra que a própria ANS já reconhece a técnica como tratamento legítimo.

O que o STF e o STJ decidiram

Em setembro de 2025, ao julgar a ADI 7.265, o STF fixou cinco critérios, que precisam estar presentes ao mesmo tempo, para que o plano seja obrigado a cobrir o que está fora do rol:

Em junho de 2026, a 4ª Turma do STJ aplicou esses critérios a uma cirurgia robótica. No REsp 2.235.175 (relator ministro João Otávio de Noronha), um paciente com câncer de próstata teve negada a prostatectomia robótica, e o tribunal de origem havia considerado o rol taxativo. O STJ reformou a decisão e mandou o plano cobrir, entendendo que a indicação médica da técnica robótica, superior à convencional naquele caso, justificava a cobertura. O tribunal reafirmou a ideia, antiga na sua jurisprudência, de que o plano pode definir as doenças cobertas, mas não o tratamento indicado pelo médico.

Para a endometriose, o caminho é o mesmo. O ponto sensível é o terceiro critério: o plano vai argumentar que a videolaparoscopia, coberta, é alternativa eficaz. Por isso, o relatório médico precisa explicar por que, no seu caso, a laparoscopia convencional não é adequada, por exemplo pela extensão da doença, pelos órgãos atingidos ou pelo risco de lesão.

A "taxa do robô": quando o plano autoriza a cirurgia, mas não a plataforma

É uma situação comum: o plano autoriza a cirurgia de endometriose, mas o hospital informa que o uso da plataforma robótica não está coberto e cobra da paciente uma taxa à parte, muitas vezes de valor alto.

A questão é discutida na Justiça, e os tribunais ainda não têm resposta única. O argumento a favor da paciente é que a técnica faz parte do tratamento indicado pelo médico, e o custo do instrumento não pode ser transferido para quem já paga o plano. O argumento das operadoras é que a técnica robótica, fora do rol, não é de cobertura obrigatória. O resultado depende, de novo, da justificativa médica e do enquadramento nos critérios do STF.

Antes de assinar qualquer termo de responsabilidade pela taxa, peça ao hospital e ao plano, por escrito, o detalhamento do que está e do que não está coberto. Se já pagou, guarde notas e recibos: o valor pode ser cobrado depois.

Em quanto tempo o plano tem de autorizar a cirurgia

Se o plano descumprir os prazos, registre reclamação na ANS: ela abre um procedimento de intermediação com a operadora.

Como é a cirurgia e como costuma ser a recuperação

A cirurgia busca retirar ou destruir os focos de endometriose e, quando necessário, tratar os órgãos atingidos. Em casos de infiltração intestinal, pode envolver a retirada de um segmento do intestino. A extensão do procedimento define o tempo de cirurgia e a recuperação.

Nas técnicas minimamente invasivas (laparoscopia e robótica), a alta costuma ocorrer em poucos dias, com retorno gradual às atividades leves nas semanas seguintes. Cirurgias com ressecção intestinal ou de bexiga tendem a exigir recuperação mais longa. Os cuidados no pós-operatório (repouso, esforço físico, alimentação e retorno à atividade sexual) são definidos pela equipe médica.

Quais são os riscos

Como toda cirurgia, a de endometriose tem riscos, que variam conforme a extensão da doença: sangramento, infecção, lesão de órgãos vizinhos (intestino, bexiga, ureter), complicações na cicatrização de alças intestinais e trombose. A doença também pode voltar com o tempo. Esses riscos devem ser explicados pelo cirurgião antes do procedimento, e o termo de consentimento é um documento importante também do ponto de vista jurídico.

Quanto custa a cirurgia no particular

O custo varia muito conforme a cidade, o hospital, a equipe e a extensão da doença. Ele costuma somar honorários da equipe cirúrgica e da anestesia, diárias e materiais hospitalares e, na técnica robótica, a taxa de uso da plataforma e dos instrumentos descartáveis. Na prática, a cirurgia robótica de endometriose profunda no particular costuma alcançar valores elevados, o que explica por que a negativa do plano pesa tanto. Se a paciente pagar do próprio bolso por causa de uma negativa indevida, o valor pode ser cobrado do plano depois, com os comprovantes.

O plano negou: o que fazer

  1. Peça a negativa por escrito, com o motivo e a cláusula. A operadora é obrigada a fornecê-la.
  2. Peça ao cirurgião um relatório detalhado, que explique o grau e a localização da doença, os órgãos comprometidos, por que a técnica robótica é necessária naquele caso, por que a laparoscopia convencional não é adequada e quais estudos sustentam a indicação.
  3. Peça reanálise à ouvidoria da operadora e registre reclamação na ANS.
  4. Se a resposta não vier ou o caso for urgente, a via é a ação judicial com pedido de tutela de urgência (CPC, art. 300), para que a cirurgia seja autorizada antes da sentença. Em casos de risco iminente, o pedido pode ser apreciado até em plantão judicial.

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Reembolso e dano moral

Se a paciente pagou a cirurgia ou a taxa do robô por causa de uma negativa indevida, pode pedir o reembolso do valor, com correção. Já o dano moral não é automático: no Tema 1.365, julgado em março de 2026, o STJ definiu que a simples recusa de cobertura não gera dano moral presumido. Ele pode ser reconhecido quando a negativa agrava o quadro, atrasa um tratamento necessário ou causa sofrimento que vai além do aborrecimento, o que precisa ser demonstrado.

Conclusão

O plano deve cobrir a cirurgia de endometriose. A técnica robótica, fora do rol, pode ter de ser coberta quando o caso atende aos critérios do STF, como o STJ reconheceu em 2026 para outra doença. Em quase todos os casos, a diferença está no relatório médico e na documentação reunida desde o início.

Leia também: Plano negou tratamento fora do rol da ANS: os critérios do STF → · Plano negou cirurgia bariátrica → · Plano negou internação ou UTI →

Fábio Persequino, advogado
Sobre o autor
Fábio Persequino · OAB/RJ 262.463

Advogado com atuação em Direito da Saúde, Previdenciário, Consumidor, Digital e Empresarial. Atendimento remoto em todo o Brasil.

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